terça-feira, março 15, 2005

o poder do pixel

O lento manuseio humano da maior parte da informação, sob a forma de livros, revistas e jornais, está em via de se transformar na transferência instantânea e barata de dados electrónicos movendo-se à velocidade da luz. Sob tal forma, a informação pode-se tornar acessível para todos. A informática não tem mais nada a ver com computadores, mas sim com a vida das pessoas. O gigantesco computador central “mainframe” já foi substituído por microcomputadores em quase toda a parte. Vimos os computadores mudarem-se de enormes salas com ar condicionado para os gabinetes, desktops e, agora, para os bolsos e lapelas das pessoas.
De futuro, os meios de comunicação de massa serão redefinidos por sistemas de transmissão e recepção de informação personalizada e entretenimento.
À medida que nos formos interligando, muitos dos valores nacionais cederão lugar àqueles de comunidades electrónicas maiores ou menores. A socialização em bairros digitais, nos quais o espaço físico será irrelevante e o tempo desempenhará um papel diferente. Daqui a 20 anos o que poderá ser visto por uma janela poderá estar a 8 mil km e 6 fusos horários de distância.
A multimédia interactiva deixa muito pouco espaço para a imaginação. Inclui representações tão específicas que deixa cada vez menos espaço para a fantasia. A palavra escrita ao contrário, estimula a formação de imagens e evoca metáforas cujo significado depende sobretudo da imaginação e das experiências do leitor.
A melhor maneira de avaliar os méritos e as consequências da vida digital é reflectir sobre a diferença entre bits e átomos. Embora não haja a menor dúvida de que se está na era da informação e onde a maior parte dela chega até nós sob a forma de átomos: jornais, revistas e livros.
A super estrada da informação nada mais é do que o movimento global de bits sem peso à velocidade da luz. Todas as indústrias, uma após a outra, perguntam-se sobre o seu futuro; pois bem, esse futuro será determinado pela possibilidade de seus produtos adquirirem uma forma digital.

Podemos considerar a tipografia como o conceito chave da comunicação visual, mas maquetar um livro ou uma página web exigem conhecimentos aparentemente idênticos mas ao mesmo tempo distintos, sendo pois que o output final será dois suportes distintos. O que pode ser benéfico num dos meios no outro pode converter-se numa barreira que afecte o processo comunicativo.
O Pixel provém das palavras picture e element. O verdadeiro poder do pixel provém de sua natureza molecular, uma vez que ele pode ser parte de tudo, desde texto até fotografias, passando por linhas de desenho. Quer se faça trabalhos de design gráfico ou tipográfico a verdade é que o computador será quase de certeza o meio da sua criação. O que quer que se crie no ecrã será para ser editado de uma forma ou de outra. Quer seja uma página de Internet ou um livro, implicará termos um conhecimento alargado de visualização no ecrã e do meio que pretendemos para que o trabalho final seja o que se pretende.
A questão fundamental é sermos capazes de imaginar um trabalho idealizado mentalmente de uma forma e “arranjado” visualmente de outra. O ecrã do computador é constituído por milhares de quadradinhos, os pixeis, alinhados por grelhas, e normalmente mediante a resolução do ecrã (maior ou menor) vamos conseguir visualizar melhor ou pior a imagem que pretendemos. Ou seja, a baixa resolução dos monitores é incapaz de visualizar detalhes demasiado pequenos para caberem nessa grelha embora os reconheça. Isso causa problemas na visualização, por exemplo, ao nível das letras serifadas onde os pormenores demasiado pequenos, não se conseguindo “ajustar” à grelha de pixeis, são re-ajustados ou simplesmente omitidos.
Hoje em dia o aumento da capacidade de resolução dos monitores diminui a grelha de pixeis, o que tem ajudado a equilibrar a imagem de ecrã com os outputs pretendidos, pelo menos já não existem disparidades tão acentuadas.
Há cerca de 20 anos Zuzana Licko, uma das co-fundadoras da Emigre, cria uma de muitas famílias de fontes, a Lo-Res. Criada com o recém surgido Macintosh, utilizou um software rude e limitado. A fonte surge, como muitas na altura, ditada como idiossincrática e de capacidades limitadas, com um futuro sombrio dado a anunciada chegada de computadores com ecrãs e outputs de alta resolução. Foi a questão da legibilidade e de um visual apelativo que aliadas à limitada capacidade dos computadores e ao facto de as impressoras de agulhas estarem em força, que levou à criação desta fonte.
As fontes pixeladas não tiveram vida fácil, talvez demasiado inovadoras em termos visuais elas fundamentalmente surgiram para tapar um problema tecnológico que foi rapidamente “compensado” e durante as décadas seguintes foram marginalizadas e postas de parte, mas sem nunca desaparecerem. Eram fundamentalmente utilizadas para temas ligados à tecnologia.
Com o surgimento de designers mais novos com uma formação de base já da nova era digital, habituados aos primeiros jogos de computador rudes e básicos, trazem consigo uma formação visual já habituada a esta tipografia. O uso frequente da Internet tem facilitado essa adaptação sendo que o pixel já é aceite como uma marca natural do computador como se tratasse de uma pincelada num quadro a óleo.
A Lo-res é uma síntese de fontes pixeladas criadas pela Emigre como a Base 9, Emperor, Oakland e agrupa-as num só nome. Tem melhoramentos técnicos em relação às demais, sendo mais consistente ao nível das formas entre os vários estilos e tamanhos bem como uma melhoria nos alinhamentos. O número que indica no nome representa a quantidade de pixels utilizados no corpo.
Ao contrário das fontes bitmap, a maioria das fontes usadas hoje em dia não tem uma resolução predefinida. São criadas com alta resolução fazendo com que as formas possam ser escaladas virtualmente até qualquer tamanho. Mas em tamanhos pequenos no ecrã continuam com os mesmos problemas de leitura.
A nova era digital, e o facto de toda a gente ter acesso a quase tudo, veio democratizar o design. Toda a gente tem a mesma oportunidade e ferramentas de trabalho que os profissionais usam. Embora com uma abundância de recursos e opções para poderem aumentar a capacidade comunicativa, a verdade é que sem conhecimento necessário do que se faz, a comunicação pode ser ainda mais difícil devido a confusões que se geram na transmissão das ideias. Tal como saber como funciona na íntegra o meu carro não faz de mim um mecânico, qualquer pessoa com um computador e os programas adequados não se pode qualificar como designer. Embora seja essa a ilusão criada, o que distingue um designer dos demais é a capacidade de aplicar os seus conhecimentos e justificar a selecção que fez de entre milhares possíveis ao seu dispor.
O poder do pixel acaba por ser a necessidade de conhecer o plano em que trabalhamos. Compreender o computador e como visualiza a informação que lhe damos. Embora os programas facilitem cada vez mais o nosso trabalho como designers, e estejam mais potentes e com monitores de resoluções quase impensáveis, a questão do conhecimento e da aplicação do mesmo continua a ser a pedra basilar para nos permitir comunicar de uma forma simples, ordenada e facilmente compreendida por todos.

2 comentários:

BM disse...

belo texto!

Alain g. disse...

Olá patrice!
Vim aqui parar por acaso atraves do "olhares"...
Parabéns, tuas fotos estão cada vez melhores!
Reconheci algumas do raizes :)
um abraço

alain g.